domingo, 25 de agosto de 2013

Angelica, a afilhada dos Nonnos Lino e Giulia

Cravinhos, 24/12/1899. Era batizada na igreja de São José (na verdade foi capela de São Benedito, pois a pedra fundamental da igreja de Cravinhos foi lançada apenas depois), Angelica, que nascera em 5 de maio do mesmo ano.

Filha de Francesco (Giuseppe ) Zuanon e Maria Pecorari, teve como padrinhos meus bisavós Lino Polo e Giulia Zuanon:


O charme registro, assinado pelo pároco italiano Giacomo de Petris era que nesta data, ainda restavam quase 11 meses para o casamento dos então prováveis noivos.

Posteriormente, o nonno ganhava mais uma provável homenagem do mesmo casal. Era batizado em 01/06/1902 Lino Zuanon. Lino faleceria em 07/07/1983 em Itápolis, suicidando-se segundo os registros do Município.

Era comum a homenagem nos numerosos filhos com nomes dos parentes, principalmente avós, pais, irmãos e cunhados.


Algo que curiosamente me chamou a atenção: o sobrenome dos padrinhos é o mesmo do marido da irmã do nonno, Stella. Seriam parentes?

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uma verdadeira sacanagem com as putas (em outro sentido, claro)

Dia internacional das mulheres. Todo mundo dá abraço na esposa, na mãe, na irmã, na colega de trabalho, na domestica, enfim, em todo mundo. Mas acho que ninguém se lembra das putas, das meretrizes. E acho isso sacanagem, no sentido mais purista da palavra.

A cultura de Ribeirão deve muito às putas: como ilustrado na carta de Monteiro Lobato neste blog, assim como outras publicações constatamos à Belle Époque caipira. As nativas não eram tão atrativas. Importavam-se as Francesas com uma ligeira condição: como Ribeirão era na época o Fim do Mundo, queriam ao menos parte do luxo que encontravam na cidade Luz. 

Assim, para agrado de suas concubinas, os barões do café trouxeram os mascates árabes e suas sedas, a primeira exibição de cinema no estado de São Paulo parece ter sido aqui. Importávamos champagne diretamente da França.


Corista do Cassino Antarctica, 1927 (Fotografo: Salin Aissum)

O grande cafetão, ops, quer dizer, o empresário do deste tipo de diversão na pequena Paris caipira era o Francês Francisco Cassoulet, que administrou cassinos como o Eldorado e o Artarctica, que ficava na esquina das ruas Amador Bueno e Américo Brasiliense. A coisa fica mais interessante ainda quando pensamos que essa região é da Igreja. Ou seja, pagando o laudêmio, até o puteiro funcionava:



A foto de Fransciso Cassoulet, do livro “História de Ribeirão Preto” vol.1 de Rubem Cione:



O grande poder aquisitivo dos coronéis do café fez com que Ribeirão Preto se desenvolvesse a ponto de ser comparada a grandes metrópoles da época, principalmente Paris, cidade que serviu como modelo de modernidade, suntuosidade e beleza. Imitando sua arquitetura e hábitos sociais, surgiram vários teatros e sociedades que promoviam os eventos e entretenimentos sociais, como exemplo: Teatro Eldorado, Teatro High-Life, Bijou Theatre, Paris Theatre, Sociedade Recreativa de Esportes, Sociedade Dante Alighieri, Sociedade Legião Brasileira de Assistência, União Geral dos Trabalhadores, Salão Auxiliadora e Sociedade de Socorros Mútuos.

Um dos vários estudos acadêmicos sobre a atuação de François Cassoulet é o de Benedita Luiza da Silva (2000): O Rei da Noite no Eldorado Paulista: François Cassoulet e os entretenimentos noturnos em Ribeirão Preto (1880-1930), que aborda a questão do processo de desenvolvimento da empresa de entretenimentos de Ribeirão Preto comparada a outros municípios do interior do estado de São Paulo como Campinas, Franca e Batatais. Segundo a autora, estas cidades com as mesmas condições materiais, como a existência de ricos produtores de café e da ferrovia Mogiana, não tiveram um desenvolvimento crescente comparável ao de Ribeirão Preto. (cópiado de http://arquivohistorico.blogspot.com.br/2011_07_01_archive.html)

Ainda sobre as mulheres de RIbeirão no fim do século XVII e início do XIX, segundo publicação no arquivo histórico de São Paulo (http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao45/materia03/):


Theatros etc... Eldorado

Foi esplendida, magnifica mesmo a festa que o sr. Francisco Cassoulet nos roporcionou na noite de antehontem no seu elegante theatrinho da rua S. Sebastião. 
Ricamente  engalanado, se achava interna e externamente aquelle edificio onde centenas de pessoas apreciavam a largas golles o especial "chopp" offerecido pelo Cassoulet.

O espetaculo foi o que de melhor se poderia desejar, tal a correção dos artistas que,  renovaram as bellas "toalettes" e primaram no desempenho dos seus papeis.
Duvernot veio mostrar aos "habituaes" que tinha o dever de tomar parte directa, cantando admiravelmente o seu "Ninon"...
Los Corona, incpichensíveis, elegantes e sympathicos nos deliciaram gostosamente nos seus duettos de fina escolha. Os demais artistas, quase disciplinados soldados, venceram o combate da noite, merecendo applausos.
Cumpre-nos e o fazemos com justiça aqui, salientando os trabalhos de Rina Zambelli, a quem coube as honras da noite.
Indubtavelmente fez supplantar a tudo aquillo que haver pode de bom, de bello, atrahente, fascinante e encantador.
Rina ZAmbelli mostrou-se como sempre irreprehensível.
Cantou, porém com tão elevado gosto, com tanta harmonia e sedução que a enorme massa de seus admiradores fizeram-na voltar ao palco cinco vezes, terminando com a "tosca".
O sr. Cassoulet mais uma vez triumphou, amenisando-nos com uma belíssima noite.
"Chopps" e charutos foram distribuídos gratuitamente e as 11 horas fomos distinguidos com o especial "champagne" que o Cassoulet offereceu a imprensa do Ribeirão Preto e a policia alli representada.
Agradecendo ao Cassoulet as finezas que nos dispensou, fazemos votos para a prosperidade de seu estabelecimento e damos-lhe os nossos parabéns. (Sexta-feira, 11 de Outubro de 1907)

Ou seja, reconheçamos o valor de nossas putas no passado, em especial para nossa cultura, e até mesmo os ares franceses que ainda sopram por aqui (e que trouxeram a seleção da França) Esquecer delas, seria uma grande sacanagem...


Uma volta ao passado - Visitando o Solar Villa Lobos (Casarão da Caramuru)

1890 - Meu bisavô tinha 14 anos e esta casa já estava de pé fazia tempo. Considerando que ela ainda se encontra mais ou menos de pé, sem nenhuma reforma, isso é um fato e tanto:


"Localizado no número 232 da Avenida Caramuru, na Vila Virgínia, o Solar Villa Lobos, também conhecido como Casarão Caramuru, foi construído na segunda metade do século XIX, o imóvel que é um dos mais antigos da cidade, ainda possui a fachada trazida da Itália em 1892, que pode ser vista com alguma dificuldade."


O que era então sede de uma fazenda, foi engolido pela cidade. Há registros de sua construção em 1883 (ou seja, ele existe aqui antes da minha família). Boa parte da Vila Virginia, parte da USP e outros pedaços deste lado da cidade de Ribeirão correspondiam à então fazenda.

Estarei pesquisando maiores detalhes da construção. Recebi a graça de poder visitar esse imóvel tão espetacular junto com meus colegas de trabalho, em visita guiada com uma equipe da Prefeitura Municipal Apesar do abandono, me senti lisongeado com a oportunidade. Seguem fotos que fiz pessoalmente.

Detalhe curioso: A frente que ele possui hoje para a avenida Caramuru é obra do arquiteto Italiano Vicente Lo Giudice, que foi colocada depois da casa existente muitos há muitos anos, quando a então avenida estava sendo criada:











A única coisa que me preocupa é que esse restauro seja um restauro mesmo. Vi um projeto que não me parecia um restauro, e sim uma fachada com um treco modernista no fundo, parecendo uma das faculdades privadas aqui de Ribeirão. 

Os afrescos são simplesmente fantásticos. Relata-se que seu pintor foi um dos professores de Portinari. Eles possuem cenas de Veneza, do café, elementos geométricos e algo que acredito ser de referencial maçônico:








terça-feira, 4 de junho de 2013

A Família da Irmã Mais Velha da Nonna Giulia Zuanon

Legal. Muito Legal. Show de Bola. Um ramo da família gerada pela Paolina, irmã mais velha da nonna Giulia Zuanon tem um encontro anual. Que coisa linda, parabéns!!!

Paolina, na verdade Paola Angela Zuanon, nasceu em Santa Giustina in Colle (PA) em 25/09/1876, que se casou com Ferdinando Menegatti em data e local que não descobri em minhas pesquisas. Seu primeiro filho, Angelo Menegatti nascera 26/06/1900 na cidade de Cravinhos.

Após isso, a única menção que encontrei deles foi de um grupo de estudos onde dizia-se terem ido para a cidade de Jaú, mas nada que pudesse confirmar. Não sei onde faleceram.

O encontro dessa família ocorre na cidade de Caarapó, no Mato Grosso (que coisa, não?) e realmente me emocionou:


Sonho em fazer algo por esses lados aqui também. Aos Menegatti de Caarapó, se tiverem mais informações e fotos de Paolina ou Ferdinando, será um prazer publicar.

Parabéns!!!!

domingo, 26 de maio de 2013

As matas na Guatapará e outras coisas curiosas

A interessante publicação "Filhos do Café" disponível no site da Prefeitura de |Ribeirão Preto tem fotos e dados impressionantes:

A primeira coisa diversa que achei mostra a então Fazenda Guatapará em 1889 (ano do casamento de Giovanni Polito, na época em que provavelmente meu bisavô Lino teria morado). Observem o cenário: As matas atrás da colonia de casas. Uma foto maravilhosa:


Uma foto que mostra o então fundador Martinho Prado cuidando pessoalmente da Fazenda:



Outra coisa curiosíssima é a descrição que Monteiro Lobato faz da cidade de Ribeirão em carta a um amigo em 1907. Fala das prostitutas europeias,  de sua diferença com as cidades paulistas e mineiras e também uma coisa bacana -  já se bebia por essas bandas Champagne:


Rangel,

Estou seriamente endividado para contigo, em cartas, livros, cumprimento de promessas, pedaços de queijo... Mas explica-se a má finança. O mês de dezembro passei-o todo fora daqui, em S. Paulo e no  Oeste. 

Corri as linhas da Paulista, Mogiana e Sorocabana, com paradas nas inconcebíveis cidades que da noite para o dia o Café criou - S. Carlos, um lugarejo de ontem, hoje com 40 mil almas; Ribeirão Preto, com 60 mil; Araraquara, Piracicaba a formosa e outras. Vim de lá maravilhado e todo semeado de coragem nova, pois em toda a região da Terra Roxa -um puro óxido de ferro - recebi nas ventas um bafo de seiva, com pronunciado sabor de riqueza latente. 

Em Ribeirão, a colheita do município foi o ano passado de 4 e meio milhões de arrobas -coisa fabulosa e nunca vista. Um fazendeiro, o Schmidt, colheu, só ele, 900.000 arrobas. Costumes, hábitos, idéias, tudo lá é diferente destas nossas cidades do velho S. Paulo e da tua Minas. Em Ribeirão dizem que há 800 “mulheres da vida”, todas“estrangeiras e caras”. Ninguém “ama” ali à nacional. O Moulin Rouge funciona há 12 anos e importa champanha e francesas diretamente. 

A terra-chão, porém, é uma calamidade -”enferruja”, isto é, avermelha todas as pessoas e coisas, desde a fachada das casas até o nariz dos prefeitos. Vai um pacotinho de amostra. Não pense que é tinta, não. Lá ninguém mora; apenas estaciona para ganhar dinheiro. Esse meu passeio de 3.453 quilômetros de via férrea buliu muito com as minhas idéias. 


[...] Eu mesmo gostaria de firmar-me por lá [...] Estou tentando ser nomeado para Ribeirão Preto... (Lobato, 1950 pp. 153-155)

Maravilhoso, não?

Mais sobre o Padrinho do nonno

Silvestre Molesin (ou Monesin). O padrinho do nonno permitiu mais uma interessante descoberta. Ele conseguiu viajar para a Italia novamente junto com 2 filhas, aparentemente a passeio. No memorial do Imigrante é seu registro de retorno ao Brasil:


Aparentemente viajara com duas filhas, Elvira e Ida. No rodapé, dados de residência em Cravinhos há 11 anos, e o Fazenda de Café que morava, pertencente à Alfredo Arantes.

Isso prova que os Italianos aqui visitavam seus parentes na Italia. Laços desfeitos com o tempo, infelizmente...

terça-feira, 21 de maio de 2013

A trágica epidemia de varíola em 1887 de São Simão


Janeiro de 1888. Ao tentar encontrar o óbito de meu trisavô Pietro Polo em São Simão (onde sei que a família também morou), encontrei um registro impressionante. Ao contrário dos registros comuns, a epidemia obrigou o vigário P. Angelo Jose Philidory Torres a registrar de forma resumida e específica a tragédia que se abateu sobre a então principal cidade da região, maior que a pequena Ribeirão Preto:

"Nota= No dia nove de Setembro ultimo, foi esta Villa accomettida pelas bexigas; a população retirou-se quase toda ficando somente na villa os desvalidos de meios para fugir, alguns negociantes levados mais pelo interresse do que pela philantropia, a colonia de estrangeiros que trabalhavão na nossa Matriz e o vigário da parochia e dois medicos que a bem da humanidade não recuaram diante de terrível morbo e combateram-no com tanta energia e intellygencia que em menos de tres meses puderam dar alta a todos os doentes do  Lazareto e  declarar extinta a doença variola. O numero de acometidos elevou-se a noventa e quatro e trinta e nove foram as vitimas. Si em fim de Dezembro findo pudemos organizar uma lista exacta, quanto é possível em semelhantes casas das que sucumbiram a fatal doença e foram enterrados em um cemitério ad hoc, a qual vai transcripto n´este livro de obitos par servir em caso de necessidade"

A tabela na impressionante e histórica imagem abaixo: